A CAMINHO DOS SERTÕES DE CANUDOS

A CAMINHO DOS SERTÕES DE CANUDOS

Salve o Bom Jesus Meu Conselheiro

Nas veredas dos sertões
Em Canudos na Bahia
Conselheiro já fazia
Grande peregrinação
Santos pés pisaram o chão
E o povo em romaria
Ao profeta seguia
Em penitência e oração

O sangue correu no chão
Foi cruel selvageria
Moreira Cezar morria
Com ele a decepção
Foi sua destruição
Pagou caro a ousadia
Pois o cão desconhecia
A força da oração
Desrespeitou a união
A fé, a primazia
O amor que existia
No sertanejo irmão

Conselheiro em seus sermões
Ao povo sempre dizia
Que era chegado o dia
Da nossa libertação
Chegou o dia então
Salve, salve ao bom Jesus
O rio está cheio de leite
As ribanceiras de cuscuz

Refazendo os caminhos
De Antônio o Conselheiro
Esse foi o roteiro
Que a Uneb traçou
Um projeto elaborou
Articulou, fez parceiro
Em seu encontro primeiro
Muito se concretizou

Canudos, Euclides da Cunha
Monte Santo, Uauá
Com essa iniciativa
Começaram a se integrar
A proposta é consequente
Turismo, Meio Ambiente
E Cultura popular

Consequência a economia
Far-se-á revigorada
A infra estrutura
Hotéis, boas estrada
As ações dos municípios
Este é o princípio
Serão regionalizadas

Ainda desdobramento
Da ação do Conselheiro
Cento e dez anos depois
Através de seus herdeiros
Continua a história
Esta viva na memória
A mensagem e o mensageiro

Se cumpre a profecia
Do profeta que dizia
Que o sertão vai virar mar
Pois o desenvolvimento
O processo em movimento
Já não pode mais parar

O Instituto Anízio Texeira
Também a Petrobrás
As quatro prefeituras
As comunidades rurais
A Uneb assessorando
O povo participando
O projeto assim se faz

Forma-se nos municípios
Comissões permanentes
Para gerir as ações
Discutidas comumente
Um fórum regional
Que será o principal
Junta os elos da corrente

Vamos diagnosticar
Nossas potencialidades
Para poder intervir
Mudando a realidade
Equilíbrio e gestão
Regional sustentável

Mapear pontos turísticos
Dessa nossa região
Panfletos, internet
Rádio, televisão
Servirão de instrumento
Usado a todo momento
Será a divulgação

Levantar toda a história
Do nosso forte sertão
Elaborar calendário
Com toda informação
Depois fazer o roteiro
Capacitar os guias primeiro
E o turista está na mão

Assim o roteiro turístico
Será socializado
Entre os quatro municípios
O Meio Ambiente preservado
O resgate da Cultura
Nessa nova conjuntura
Será esse o resultado

Uma escola, oficina
Arte e música popular
Será oportunidade
Pra cultura preservar
Descobrir grandes talentos
Fabricar até instrumentos
Trabalho e renda gerar

Nesse nosso seminário
Precisamos avançar
Vamos melhor discutir
O projeto detalhar
Juntar todas as sugestões
E dentro das discussões
Escolher e priorizar

Vamos definir papéis
Os deveres, obrigações
O tempo para concluir
Objetivos e ações
Essa metodologia
Aplicada dia a dia
Transformará os sertões

Naquele tempo Antônio
Brotou vida no sertão
Pois é na mesma vereda
Que se encontra a solução
É preciso compreender
Tomar atitude e fazer
A nossa revolução

A caminho dos sertões
A Uneb projetou
A Petrobrás assumiu
O IAT abraçou
Os caminhos se abriram
Quatro municípios uniram
Tudo já se transformou

BGG da MATA VIRGEM
Poeta Popular
Uauá Bahia Brasil
AGO – 2007

UAUÁ: HISTÓRIA E CULTURA NO SERTÃO DA BAHIA

“Aqui em Uauá quase todo mundo é artista! É até difícil você diferenciar o que é povo e o que é artista aqui em Uauá”. Assim, com terna simplicidade e perceptível alegria, se traduziu o jovem poeta Fidel, filho de Uauá, em depoimento ao autor, em 2012.

O eminente escritor peruano Mário Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura e que escreveu a relevante obra “Guerra do Fim do Mundo”, publicada em 1981 e na qual mescla personagens fictícios e reais, versando, em especial, sobre a Guerra de Canudos, em entrevista recente a uma importante emissora de TV nacional, confessou a sua grata surpresa “quando se deparou, nas pesquisas pelos sertões baianos, com poetas populares e cordelistas em Uauá, compondo e recitando com maestria, tais quais os medievos trovadores, as suas produções artísticas singularmente referenciadas em obras clássicas do velho mundo”. O erudito escritor cantagalense, Euclides da Cunha, na sua grande obra “Os Sertões”, referiu-se à humilde Vila de Uauá, na passagem do século XIX para o XX, como sendo um dos “trechos mais animados daqueles sertões”.

Não há dúvida, em Uauá, saboreando-se um doce umbu ou degustando-se um suculento bode, deliciosas iguarias da culinária sertaneja, pode-se igualmente desfrutar, em especial quando de suas principais efemérides religiosas e culturais, as belíssimas composições, os interessantes “causos”, a terna poesia, a plasticidade cênica, as vozes inconfundíveis, as batidas compassadas e os acordes deslumbrantes de seus respectivos compositores, memorialistas, poetas populares, cordelistas, cantadores, zabumbeiros, sanfoneiros, aboiadores e repentistas.

Terra das tradicionais e cativantes alvoradas juninas, em que a viola, a sanfona, o pé-de-bode, o violão, o banjo, a rabeca, a zabumba, o triângulo, os repiques e os pífaros, irmanados e harmônicos, abraçam e saúdam, com alegria e naturalidade, a todos, sejam filhos legítimos ou não, num amálgama ditoso, Uauá, indiscutivelmente, é um recanto privilegiado e sempre pulsante das genuínas expressões e manifestações da cultura popular sertaneja.
Breve Histórico

No último quartel do século XIX, período reconhecidamente conturbado da política brasileira, pois, além da mudança do regime escravista de trabalho para o livre assalariado (maio/1888), o notívago regime republicano então implantado em novembro de 1889 intentava a sua difícil afirmação, em razão dos constantes questionamentos e mesmo das revoltas políticas e militares que estavam na ordem do dia .
Neste conflituoso cenário deflagra-se a fratricida e dramática Guerra de Canudos , em 1896. Ao contexto político nacional insidioso somaram-se as complicadas querelas oligárquicas paroquianas da Bahia, quando duas correntes políticas disputavam o domínio local, cada qual, na insana defesa de seus interesses, buscava, sem escrúpulos, demonstrar a sua fidelidade à nova ordem constituída . Aí, em meio às artimanhas do jogo sujo político, o peregrino Antônio Conselheiro e sua resistente comunidade – o Arraial do Bello Monte – viram-se envolvidos nas tramas políticas, ambos injustamente rotulados de “restauradores monarquistas”.

Conselheiro, de fato, combatia à República, mas, em especial, naquilo que o novo regime, na sua particular concepção, afrontava a sua religiosidade, a exemplo da expulsão do Imperador do Trono – já que este era concebido como representante de Deus na terra -, da instituição do casamento civil – perdendo importância, respeito e obrigatoriedade o enlace religioso -, do fim do ensino religioso obrigatório nas escolas, etc. Entretanto, imperativo ressaltar que a cobrança dos impostos, abrupta e inadequadamente implantada e, por conseguinte, mal compreendida e aceita pelos sertanejos, os quais, historicamente desamparados porque sempre excluídos dos poderes constituídos, também foi bastante contestada pelo líder religioso, contestação, afinal, que contribuiria para o início oficial de sua perseguição pelas forças políticas e militares . Necessário, ainda, realçar que os membros do Clero Católico e os grandes proprietários de terras perseguiam, já fazia considerável tempo, ao Conselheiro e ao seu cada vez mais numeroso séquito, em face respectivamente das perdas de seus fiéis e de seus explorados trabalhadores, que então engrossavam vertiginosamente o grupo de seguidores do incansável e fervoroso peregrino.

Foi justamente na bucólica e acanhada Vila de Uauá que se daria o chamado “1º Fogo” da Guerra de Canudos, em novembro de 1896. Tendo partido em marcha longa e claudicante da cidade de Juazeiro e vencido, com considerável dificuldade, os ínvios meandros da caatinga, a 1ª Expedição Militar enviada para a destruição do Arraial do Bello Monte (que ficaria mais conhecido na história como Arraial de Canudos!), comandada pelo Tenente Manoel Pires Ferreira, estacionou na referida vila, onde sofreria renhido combate dos conselheiristas. Aí fez história o guerreiro João Abade , liderando, com afamada desenvoltura, o séquito de penitentes devotos do peregrino Antônio Conselheiro, num cruento embate com as forças repressivas. Interessantes os relatos orais que descrevem os lutadores do beato chegando para a guerra como também poderiam ter chegado para uma procissão ou ato religioso, pois que cantavam e rezavam, carregavam cruzes e estandartes, além de um grande cruzeiro!

O próprio comandante Pires Ferreira assim deixou escrito em seu relato oficial: “Às cinco horas da manhã do dia vinte e um, fomos surpreendidos por um tiroteio partido da guarda avançada, colocada na estrada que vae ter a Canudos. Esta guarda, tendo sido atacada por uma multidão enorme de bandidos fanáticos, resistiu-lhes denodadamente, fazendo fogo em retirada. Um deles trazia alçada uma grande cruz de madeira, e muitos outros traziam imagens de sanctos em vultos. Avançaram e brigaram com incrível ferocidade, servindo-se de apitos para a execução de seus movimentos e manobras”.

O envolvimento de Uauá neste grande conflito sertanejo, em particular o fato de a expedição militar ter se retirado do campo da luta, afugentada, consequentemente, pelo denodo e pela flagrante resistência dos combatentes conselheiristas, muito inspirou e ainda inspira a grande maioria dos compositores, cantadores e demais artistas da localidade e, mesmo, desse trecho sertanejo da Bahia, não raro referenciado como “Sertões de Canudos”. E tal como Conselheiro e Canudos, a passagem do famoso e violento “Rei do Cangaço”, Virgulino Lampião, nas cercanias de Uauá, ao final da década de vinte do século passado, também é mote para as belíssimas e variadas composições artísticas, expressas, com apreciável sutileza, nas mais diversas linguagens culturais.
Para além desses relevantes acontecimentos históricos, inegavelmente maculados na vivência do sertanejo uauaense, despontam como respeitáveis ícones e, por isso mesmo, se traduzem em constantes motes de inspiração artística a figura exemplar do vaqueiro e a singularidade e riqueza do bioma catingueiro, conformado pela sua fauna e flora, onde se destacam respectivamente o bode e as diversas espécies nativas, a exemplo do umbuzeiro, do juazeiro, do xiquexique, da macambira, da cabeça de frade, do facheiro, da favela, da barriguda, etc.

Portanto, essa cultura de raiz, tão perceptível, sedutora e resistente, nascida nos áridos solos sertanejos, contada e cantada orgulhosamente pelos seus convictos criadores, carece de registro e, consequentemente, de responsável visibilidade, propiciando novas oportunidades aos seus diletos protagonistas. Competentes e renovados canais de divulgação devem, cada vez mais, ser disponibilizados a todos os que labutam com a cultura popular. No caso desta “Terra dos Vagalumes”, cultura desvelada pelas belas paragens que o intermitente rio Vaza-Barris umedece e frutifica, cenário que a caatinga, com instigante singularidade, inspira, emoldura e embeleza.

São sanfoneiros qualificados, crescidos no aprendizado do ofício no seio familiar, a exemplo de Rennan Mendes, hoje já reconhecido instrumentista e que já exibiu o seu talento até em terras fora do Brasil , filho do grande sanfoneiro Veinho. Romarinho, tocador de sanfona desde tenra idade, hoje também sacudindo o seu fole pelos sertões baianos, é cria do grupo musical Herdeiros do Forró, tendo como seu iniciador na música e no instrumento a figura emblemática do avô, o reconhecido sanfoneiro D’Assis. Na família há dois zabumbeiros, Alair e Alan, respectivamente pai e filho; e ainda outros músicos, sobrinhos e netos, que executam saxofone, triângulo, repique, violão e outros instrumentos.

Falar de cultura em Uauá torna-se obrigatório citar a encantadora história do Bar de Seu Ademar, ou como no passado era carinhosamente alcunhado de “O Bar do Velho”. “Seu Ademar”, figura ímpar da sociedade uauaense, manso e supersticioso, era um grande violeiro, de dedos lépidos e vistosos, cantador das coisas do sertão. Legou os seus filhos para a música, destacando-se, entre eles, João Batista, exímio tocador de violão, de incontestável qualidade técnica; e a dupla Débora e Lulu, cantoras que se apresentam constantemente em Uauá e em muitos eventos na região.

O Bar de Seu Ademar transformou-se, desde os idos dos anos setenta, no referencial da música e da poesia, das famosas e tão comuns cantorias sertanejas, recanto privilegiado de poetas, compositores, enfim dos cidadãos preocupados e envolvidos com as tradições da cultura popular sertaneja, tornando-se, naturalmente, num polo acolhedor e centralizador dos amantes da boa música, ponto de (re) encontro dos filhos e amigos da terra, em especial quando das principais efemérides que acontecem na cidade, mais particularmente os festejos juninos e a grande Festa do Bode. Vários artistas lá já pousaram e exercitaram, com maestria e prazer, seus saberes e talentos, embevecendo-se com a comunhão cultural ali sempre vicejante. Assim os cantos inconfundíveis e as performances musicais de Marcos Canudos, Mestre Cavachão, Zé de Auto, Claudio Barris, Veinho, Zecrinha, João Sereno, Rennan Mendes, Maviael Mello, Vital Farias, Xangai, Fábio Paes, Gereba, Nilton Freitas, embalados pelos versos e criações artísticas de Zecalu, Max Ribeiro, Gildemar Sena, BGG da Mata Virgem, Fidel, Auto Barbosa, Pedro Peixinho e, ainda, pelas apresentações instrumentais de gente como Thiaguinho da Flauta, Cicinho de Assis, João Pernambucano, Ricardo Dom, Jorjão, João Batista, Bosco do Realejo, Carlinhos Pajeú e tantos outros representantes do cancioneiro nordestino.

Um parêntese Necessário

Talvez na Bahia de hoje poucas sejam as cidades que ainda resistem, como Uauá, à desregrada invasão propiciada pela dita homogeneização dos ritmos, mantendo, portanto, as tradicionais manifestações atinentes aos festejos juninos sertanejos. No São João de Uauá – período em que a cidade recebe milhares de visitantes -, pode-se ainda contemplar as chamadas Alvoradas Juninas, quando se dá, através de cantos e orações, o encontro da juventude com a “velha guarda” de músicos e compositores, somados aos turistas e filhos da terra, os quais, em cortejo animado por fogos e danças, pífaros e repiques, percorrem, extasiados, as principais ruas da cidade, rogando e louvando graças ao seu padroeiro, São João Batista!

Também durante os festejos juninos acontece a belíssima e fervorosa Missa do Vaqueiro, quando aproximadamente quatrocentos vaqueiros, orgulhosa e devidamente encourados, desfilam pelas praças e vielas, entoando os seus aboios, a todos seduzindo e a todos conclamando para a valorização e melhoria de seu nobre ofício. Indiscutivelmente, o vaqueiro é o indivíduo que melhor caracteriza e fielmente retrata a história de labuta e de fé do homem sertanejo. Desbravador, no passado, das terras áridas e incultas, quase sempre isolado no seu rude e belo habitat, tudo no vaqueiro respira e exala cultura: seu jeito intrigante de encarar e conduzir a vida; seu falar e caminhar; sua bravura e, ao mesmo tempo, sua hospitalidade; sua astúcia e honradez; sua indumentária e, muito especialmente, o seu amor ao animal que lhe completa e ao solo em que lida, vive e deseja morrer.

Entretanto, apesar deste rico cenário em que pulsam as mais autênticas manifestações da cultura popular, hoje, em Uauá, e de forma já preocupante porque abusiva, se dá a presença das alcunhadas bandas de pagode e de “forrós estilizados” nos palcos principais e sempre nos horários nobres da grande festa, propagadoras de ritmos e estilos que, além de não pertencerem ao cancioneiro genuinamente sertanejo, têm como característica primacial o forte apelo da sexualidade. E o que é mais grave, pois são bandas que percebem vultosos cachês e que ocupam o espaço antes, com justiça, reservado aos artistas locais, os quais têm sido progressivamente excluídos da festa, resultando em prejuízos financeiros para eles e as já aqui referenciadas descaracterizações das tradicionais expressões da cultura popular sertaneja.
Logicamente que a cultura é dinâmica, diversa, naturalmente renovadora nos seus passos e inovadora nas suas criações, que jovens artistas e suas produções rítmicas diferenciadas surjam e, consequentemente, enriqueçam o cenário cultural, considerando-se, inclusive, a propalada, porém pouco entendida e pouco respeitada, diversidade cultural baiana. Mais aceitável ainda que o “dito moderno” conviva com o “dito tradicional”. Cultura sempre foi e será movimento!

No entanto, o que progressivamente se testemunha em boa parte das cidades em que os festejos juninos eram o principal e rico atrativo – fundamentados nas suas mais caras tradições -, é a progressiva e injusta exclusão dos seus filhos sanfoneiros, zabumbeiros, violeiros, tocadores de pífanos e de pés-de-bode, repentistas e cordelistas, portanto o que significa também o isolamento do forró pé de serra, do xote, do xaxado e do baião, da poesia popular e do repente, das quadrilhas juninas e dos grupos de samba rural, dos ternos de reis e dos ternos de ciganos, substituídos agressivamente pelas bandas “forasteiras” que executam o alcunhado e pobre forró plastificado, estilizado, enfim como queiram classificar tais emanações rítmicas, ou, o que é ainda pior, pelas bandas de axé e pagode, muitas das quais, basta se conferir com maior atenção, apenas propagadoras de letras e danças exageradamente apelativas no que diz respeito, no particular, a idolatria do sexo fácil e degradante.

Eis a preocupante realidade: entre as suntuosas apresentações das bandas “famosas” – cujos dançarinos mais encenam exercícios aeróbicos e malabarismos circenses nos palcos e cujos cantores mais gritam desafinados do que propriamente cantam -, bandas, vale ressaltar, absurdamente ganhadoras de polpudos cachês, tocam e cantam, perceptivelmente acuados, desprestigiados, sob um tempo diminuto e percebendo parcos rendimentos, quando não excluídos das grandes efemérides juninas, os mais autênticos representantes do cancioneiro popular sertanejo. Há de se refletir urgentemente sobre as descaracterizações por que vêm passando as tradicionais festas juninas, inclusive com a omissão e, à vezes até, com o contributo, mediante escusos interesses, das autoridades e dos organismos institucionais constituídos, inclusive de todas as esferas de poder: federal, estadual e municipal. No mínimo há se de ter maior e mais justa oferta de oportunidades para os vários grupos, manifestações e artistas, buscando-se, consequentemente, a harmonia entre os estilos musicais, todavia respeitando-se e preservando-se a cultura popular sertaneja.

Entretanto, hoje, abrilhantando ainda mais, com muito amor e resistência, toda essa auréola cultural presente em Uauá, há o Espaço Cultural Toque de Zabumba, idealizado e tocado pelo reconhecido artista plástico, homem da pena de bico vistosa, também poeta, Gildemar Sena e por sua esposa, a poetisa Petinha. Neste espaço finamente decorado por traços e desenhos que naturalmente acolhem e bem retratam a identidade sertaneja, têm vez, durante quase todos os meses do ano, tanto os artistas filhos da terra, quanto os que, advindos dos mais diversos rincões, versam suas obras tendo como fundamentos primaciais e motes instigantes a riqueza e a singularidade da cultura popular sertaneja. Nada para estranhar em se tratando, portanto, dessa municipalidade historicamente cultural e de seus filhos artistas, orgulhosamente nascidos, como, aliás, sempre gostam de se referenciar, nessa hospitaleira e animada “Terra dos Pirilampos”.

Salve Uauá! Salve a gente criadora dos sertões!

Roberto Dantas
Historiador/Documentarista

NOTAS
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São exemplos a Revolução Federalista no sul do país, em 1893/95; e a Revolta da Armada, na Baía de Guanabara, em 1891/93.

A Guerra de Canudos iniciou-se em novembro de 1896 e teve seu fim em 05 de outubro de 1897.

As correntes oligárquicas: Gonçalvistas, que eram os seguidores do ex-presidente da província da Bahia, José Gonçalves; e os Vianistas, seguidores do atual Governador da Bahia, Luiz Vianna.

A quebra das tabuletas de impostos na feira livre da Vila de Natuba (hoje Nova Soure), nos sertões da Bahia, a mando do peregrino Antônio Conselheiro, dada a implantação do novo regime republicano, caracterizou-se como um ato de desobediência civil, propiciando aos seus perseguidores um motivo oficial para capturá-lo e, consequentemente, prendê-lo.

O Barão de Jeremoabo, Cícero Dantas Martins, maior latifundiário da região de Canudos, notabilizou-se como mais implacável perseguidor do beato e de sua gente. Líder Gonçalvista, havia perdido muitos de seus explorados trabalhadores para o séquito de Conselheiro, padecendo, portanto, as suas fazendas da carência de mão-de-obra.

João Abade era natural da cidade de Tucano, sertão da Bahia. Foi escolhido pelo peregrino para chefiar a Guarda Católica Conselheirista, grupo de homens mais afeitos ao uso das armas e conhecedores da caatinga. Vigiava, também, a vida das pessoas no arraial, em especial, o comportamento das mulheres, a quem castigava pessoalmente quando acaso cometiam faltas, a exemplo do uso da cachaça e da prática do adultério. Morreu em combate.

Rennan Mendes sanfoneiro, em companhia de Claudio Barris, cantador, ambos uauaenses, participaram na Itália do Festival Terra Madre, assim como se apresentaram na Inglaterra.

Sobre o ofício de Vaqueiro consultar competente artigo do antropólogo Washington Queiroz, intitulado “OFÍCIO DE VAQUEIRO PATRIMÔNIO CULTURAL DA BAHIA: BREVE HISTÓRICO”. Contato: wsq2@hotmail.com

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